Após passar dias naquele estado profundo de sono, alfa, coma ou como preferirem chamar. Eu pude me sentir mais uma vez eletrizada; não no sentido de fobia ou ansiedade, mas sim, sentir o pulsar de sangue em minhas veias e perceber que tem de haver um motivo para eu estar aqui e somente eu posso ter o menor controle que seja sobre isso.
Eu senti as ondas me chamando para caminhar junto a ela, e obedeci com um sorriso ao canto do lábio. Eu queria, eu precisava daquilo tanto quanto jamais havia o sentido antes. Um sinal, talvez. Mas talvez, eu também não acredite em sinais.
Como num caso do mais puro acaso... Ele estava ali, sentado junto a minha pedra favorita, como que esperando por algo, por alguém, por mim. Parecia loucura, mas a tal altura, não vejo o que perder.
Ele não estava só - ou pelo menos foi essa a impressão que tive ao me aproximar. Ele falava e ria abertamente, uma voz grave e uma risada gostosa de se escutar. Eu só podia ver suas costas e não imaginava o que alguém poderia estar fazendo sentado naquela pedra alta onde batia aquele mesmo vento gelado de Junho ao qual eu já era habituada - assim como o hábito de me encontrar comigo mesma sozinha ali.
Eu não tinha muitas opções, aquele era o meu lugar e de repente eu sentia a presença de um intruso que não me parecia tão ruim assim. Não, não dessa vez. Sem proximidades. Hora de dar meia volta e fechar aquela porta sempre tão vulnerável e tendenciosa ao sofrimento quando eu me dava ao mínimo descuido de baixar a guarda pelo menor tempo que fosse. Hora de fechar a porta mais uma vez.
Eu tentei, juro que me esforcei. Mas de certa forma, aquilo tudo me maravilhava e seduzia. Tudo bem, é só uma noite gelada e logo menos estarei deitada mais uma vez sobre minha cama quente e nem ao menos me lembrarei deste estranho engraçadinho.
Me juntei a ele com a pior desculpa e mais usada possível que encontrei no meu vocabulário.
- Por favor, que horas são?
Aqueles olhos cor de mel penetraram aos meus de uma forma inexplicável. Além de lindos, eram penetrantes, encantadores, inexplicáveis.
Ele respondeu alguma coisa relacionada a macacos que voavam ou qualquer outra coisa sobre matemática. Eu não consegui me recordar dessa parte, perdão.
Eu me sentei junto a ele depois de seu convite, eu não tive palavras, apenas assenti e me juntei a ele.
A noite seguiu entre conversas tendenciosas e tensas; entre risos e gargalhadas; entre abraços, beijos e carícias tão puras quanto o amor. Ele era diferente de tudo o que conhecia - o que mais uma vez era um bom motivo pra me afastar daquele maluco magnificamente encantador.
Eu sentia meu corpo implorando por um banho quente e roupas novas, mas eu não pude, simplesmente. O sol nascia diante de nós mais uma vez. Eu já havia visto tantos daquele sol nascente, mas aquele, ao mesmo tempo era diferente. Era mais iluminado, por mais que o vento gelado estivesse cortando nossas entranhas ali, a beira mar.
Era hora de ir embora, uma dor nova partia meu peito. Não era a dor que eu tinha me habituado em relação aos homens. Em geral, todos eles sempre me ajudaram com muita generosidade a esquecê-los simplesmente mostrando sua personalidade frágil e infantil. Já ele saia ali da minha vida voltando ao seu mundo levando consigo toda a admiração, encanto e chama de paixão que ele poderia ter extraído de mim.
As caminhadas a beira mar, agora seguiam em busca daqueles olhos cor de mel fumegando junto aos meus, ao sentimento que eu julgava só ser possível ao longo de tanto tempo; eu ardi por ter aquilo mais uma vez.
A vida se seguiu, sem ele. Mas com a promessa de que homens de verdade existem; é só uma questão de tempo, paciência, sorte e amor próprio para amar ao outro.

