Eu estava ali, naquele meu encontro marcado com alguém que não sabia exatamente que estava em um encontro, quem se importa? Bom, talvez minha dignidade já não se importasse muito mesmo com essas situações ridículas.
Bom, eu só não esperava que a mesma idéia se passava pela cabeça dele.
Me sentei no mesmo banco de sempre - onde matinalmente ele vinha com aquela beleza que chegava a ofender os demais - e tirei aquele livro velho de dentro da bolsa que me ocupava a mente durante diversas partes do dia como no ônibus, nos intervalos e antes de dormir. Mas não ali, não naquela praça onde podia usá-lo como escudo da minha covardia e observá-lo por detrás do mesmo. Ah, essa atenção nem mesmo José Saramago e sua literatura sedutor roubavam a atenção reservada àquela cabeleira loura que se postava ao meu lado.
Não precisei me curvar pra saber que ele havia chegada. O cheiro suave e másculo chegou antes dele, e não me pergunte como naquela distância que costumávamos ficar eu sentia aquele cheiro.
O caso é que daquela vez o cheiro era diferente. A fragrância era a mesma mas era mais forte de alguma forma, talvez ele tivesse passado mais colônia que o normal aquela manhã - ou pelo menos foi isso que pensei até perceber por detrás do meu livro que não era a quantidade de perfume que era maior, mas sim a distância que era menor. E de repente, como se um enxame de borboletas tivessem brotado no meu estômago, percebi que além do corpo esbelto, o topete perfeitamente desgrenhado e olhar tão profundo havia um sorriso magnífico e estonteante. Sabe o que era melhor ainda: Por mais que eu custasse acreditar, era para mim.
De repente não sinto mais vontade de descrever o restante do que fora aquele dia. As lembranças só em mim parecem ter um gosto ainda mais delicioso levando em conta que é um segredo tão meu, um gostinho tão único que perdão, mas só eu vou deliciar nos devaneios de volta aquele dia, tarde e noite.

